Curadoria Cinema Urbana 2020/ Cinema Urbana Curatorship 2020

A transferência da capital do Rio de Janeiro para o Planalto Central propiciou um novo protagonismo para a história brasileira. O olhar cinematográfico sobre a cidade de Brasília mostrou o seu nascimento com os enormes canteiros de obras e os monumentos em construção e também o fluxo migratório em direção ao sonho do eldorado que preencheu a vastidão espacial com gestos e afetos. 

Cinema Urbana faz uma homenagem aos 60 anos de Brasília e propõe um novo olhar sobre a cidade que, além de suas qualidades urbanísticas, não se constitui apenas pelo seu espaço formal, mas pelo popular, banal e ordinário. Brasília, nos seus 60 anos, vem acolhendo, reproduzindo e transformando as maneiras de habitar e experimentar uma cidade.

A reflexão trazida pelo tema Aprendendo com Brasília - emprestado do título do livro “Aprendendo com Las Vegas”, de Venturi, Scott Brown e Izenour - guiou a seleção de filmes que ajudam a traçar uma perspectiva histórica e afetiva da cidade, a partir de memórias, edifícios, luzes e sombras. A possibilidade do pertencimento em meio aos fluxos e transformações mostra que a obra arquitetônica  foi sensível ao desenvolvimento territorial e hoje abriga a população da terceira metrópole brasileira. Brasília foi além das utopias, foi capaz de fazer emergir as latências de um imaginário voltado ao místico, ao artístico, ao poético, mas também materializou em seu solo a desigualdade social brasileira.

Nessa seleção de filmes, que vai além de Brasília, mas orbita ao seu redor e a contextualiza, é possível perceber a presença da arquitetura moderna colonial que emerge em traços coloridos e sinuosos de Maputo. O direito à cidade e à moradia que ainda precisam ser conquistados, ainda que se fale de Lisboa ou de Hong Kong. Cidades que presenciam a acumulação de capital e a especulação imobiliária alterando a paisagem das grandes cidades.  

E, 60 anos depois, Brasília ainda inspira a relação com a utopia, o futurismo, uma cidade possível. A partir dessa arqueologia visual, o cinema se torna um dispositivo na compreensão sobre os imaginários urbanos e suas ramificações em meio às memórias, arquivos, moradores, trabalhadores e suas vivências. 


The relocation of the capital, from Rio de Janeiro to the Central Plateau, provided a new main role for Brazilian history. The cinematic look on the city of Brasília showed its birth with the huge construction sites, and monuments under construction, and also the migratory flow towards the Eldorado dream that filled the spatial vastness with gestures and affections.  

Cinema Urbana pays homage to Brasília's 60th anniversary and proposes a new look at the city, which in addition to its urban qualities is not only constituted by its formal, but by its popular, banal and ordinary spaces. Brasília in its 60s has been welcoming, reproducing and transforming the ways of living and experiencing a city.

The reflection on the theme Learning from Brasília - borrowed from the title of the book “Learning from Las Vegas”, by Venturi, Scott Brown and Izenour - guided the selection of films that help to trace a historical and affective perspective of the city, from memories, buildings, lights and shadows. The possibility of belonging in the midst of flows and transformations shows that the architectural work was sensitive to territorial development, and today houses the population of the third Brazilian metropolis. Brasília went beyond the utopias, it was able to bring out the latencies of an imaginariness focused on the mystical, the artistic, the poetic values, but it also materialized the Brazilian social inequality in its soil.

In this selection - which goes beyond Brasilia, but orbits around and contextualizes it - it is possible to notice the presence of modern colonial architecture that emerges in colorful and sinuous lines of Maputo. The right to be in the city and the access to housing have yet to be conquered, even if we talk about Lisbon or Hong Kong. Cities that witness the capital accumulation, and the real estate speculation changing the landscape of large cities. 

And, 60 years later, Brasília still inspires the relationship with utopia, futurism, a possible city. From this visual archeology, cinema becomes a device for understanding urban imagery and its ramifications amidst memories, archives, residents, workers and their experiences.


MOSTRA COMPETITIVA/COMPETITIVE EXHIBITION


CURTA-METRAGEM/ SHORT FILM

Cidades (Territórios & Ocupações)/ Cities (Territories & Occupation)

Alemanha, Gusztáv Hámos, Katja Pratschke, 2019, 29'50''

O filme “Cities (Territories & Occupation)” fala sobre “a cidade” dividida em bairros, vizinhanças, zonas e domínios, marcados por fronteiras internas. O filme investiga como as cidades emergem e mudam por meio da inclusão e exclusão, da migração, da decadência, da destruição, da demolição, de transformações e remoções.

Imaginamos como territórios urbanos são formados e por que eles mudam? Quem controla a cidade ou como os habitantes criam espaços livres? De quem é a cidade? Que visões urbanas e mudanças prevalecem ou são impossibilitadas?


“Cities (Territories & Occupation)” is about “the city” divided into districts, neighborhoods, zones and domains, marked by inner-city borderlines. The film investigates how cities emerge and change through inclusion and exclusion, migration, decay, destruction, demolition, relocation, displacement.

We wonder how urban territories are formed and why they change? Who controls the city or how do the inhabitants create free spaces? Who owns the city? Which urban visions and changes prevail or are prevented?

Paralelos em série/ Serial Parallels

Hong Kong, Max Hattler, 2019, 09' 

Esta animação experimental aborda o ambiente construído de Hong Kong da perspectiva conceitual de um filme celuloide, ao aplicar a técnica de animação à imagem fotográfica. A marca registrada da arquitetura da cidade, de conjuntos habitacionais verticalizados é reimaginada como linhas paralelas de tiras de filme: Paralelos em Série.


This experimental animation approaches Hong Kong’s built environment from the conceptual perspective of celluloid film, by applying the technique of film animation to the photographic image. The city’s signature architecture of horizon-eclipsing housing estates is reimagined as parallel rows of film strips: Serial Parallels.


Para trás/ Backwards

Reino Unido, Marco Augelli, 2020, 10'19''

Minus é um jovem que vive em um cinzento mundo corporativo, onde todos andam de costas. De repente, ele começa a ter visões estranhas, após uma reunião peculiar com seu chefe. A partir de então, Minus vai se ver lutando contra novos instintos, enquanto tenta se comportar conforme os dogmas sociais.


Minus is a young man who lives in a corporate grey world where everybody walks backwards. He suddenly starts to have strange visions, after a weird meeting with his company’s boss. From then on, Minus will find himself fighting against new instincts while he tries to behave with-in social dogmas.

Cão Maior/ Canis Majoris

Brasil, Filipe Alves, 2019, 20' 

Ícaro é um adolescente que procura matar o tédio nas férias. Voltando de uma partida de futebol, ele conhece João e juntos presenciam o aparecimento de uma nova estrela no céu, que torna as noites na Terra vermelhas e quentes. Tentando lidar com o fato de que estão crescendo, com o tédio e o calor extra nesse verão, eles começam a passar noites juntos pelas ruas da cidade.


Ícaro is a Brazilian teenager who tries to fill his time to kill boredom during the summer vacation. One day, returning from a football match he meets João. Together, they witness the appearance of a new star in the sky, which makes the nights on Earth red and hot. Trying to cope with the fact that they are growing, with the tedium and the extra heat this summer, Ícaro and João begin to spend nights together in the streets of the city.

Luis Humberto: O Olhar Possível/ Luis Humberto: The Possible look

Brasil, Mariana Costa e Rafael Lobo, 2019, 20'

Um olhar poético e íntimo sobre a vida e o trabalho do fotógrafo Luis Humberto.


A poetic and intimate look at the life and work of photographer Luis Humberto.

O ínterim/ Amidst

Brasil, Duda Affonso, Joelia Nogueira, Manuela Curtiss, 2020, 10'20''

Um filme que é uma colagem afetiva e apresenta uma cidade subjetiva, cidade de vivências possíveis, distante da narrativa central conhecida, entretanto nela contida. Os ideais se cumprem por meio das pessoas que realizam a cidade, fazem dela uso e a registram para assim apreendê-la. Assim como antes, o futuro. Suas estruturas ainda espantam e fascinam os novos olhos que nelas pousam.


A film which is an affective collage and presents a subjective city, a city of possible experiences, far from the known central narrative even therein inserted. The ideals are fulfilled by the people who realize the city, use it and register it in order to apprehend it. Just like before, the future. The city’s structures still amazes and fascinates the news eyes that alight on them.

A Menina de Sessenta/ The 60-year-old girl

Brasil, Jimi Figueiredo, 2020, 26'

Brasília completa 60 anos tentando lidar com uma contradição: como um moderno projeto arquitetônico, feito para 500 mil pessoas, sobrevive numa cidade de quase 4 milhões de habitantes?


Brasília turns 60 trying to cope with a contradiction: How can a modern architectural project, made for 500 thousand people, survive in a city with almost 4 million inhabitants?


Cidade: Museu Habitado/ City: Inhabited Museum

Brasil, Jéssica Dias Gomes, Letícia Pacheco Reis de Souza, Tainá Lourenço de Abreu, 2019, 5'54''

O curta é resultado de uma experimentação artística, percorrendo a cidade de Brasília, motivada pelas seguintes perguntas fundamentais: existe arte no cotidiano? É possível identificá-la através de uma experiência museógrafa pessoal que extrapole as paredes físicas do “museu edifício’’? O filme visa refletir sobre a nova proposta da arquiteta Lina Bo Bardi no projeto do edifício Masp (São Paulo, Brasil.), projetado na segunda metade do século XX.


The short film is the result of artistic experimentations, traversing the city of Brasília, motivated by the following questions: is there art in everyday life? Is it possible to identify it through a personal museum experience beyond the physical barriers of the "museum building"? The film investigates the new proposal of the architect Lina Bo Bardi in the MASP museum (São Paulo, Brazil), designed in the mid-20th century.



LONGA-METRAGEM/ FEATURE FILM

Konder: O Protagonismo da Simplicidade/ Konder "The Protagonism of Simplicity

Brasil, Gabriel Mellin, 2020, 88'55''

O documentário apresenta a vida e obra de um dos maiores arquitetos do Movimento Moderno brasileiro: Marcos Konder Netto. Autor de projetos emblemáticos e símbolo do engajamento social na arte e cultura arquitetônicas de sua época, Konder buscou contribuir ao máximo para o bem-estar da sociedade, equilibrando consciência social, teoria, técnica e política. Além de depoimentos de personagens importantes em sua trajetória, o longa apresenta as principais obras do premiado arquiteto, sua visão crítica e os maiores marcos de sua personalidade: a generosidade e a simplicidade


“Konder: The Protagonism of Simplicity" adds to the memory and history of modern Brazilian architecture. Presenting the life and work of one of the greatest architects of the Brazilian Modern Movement, Marcos Konder Netto, and some of his emblematic projects. In the film, we exclusively see Konder's original sketches, but we also get to know more about his personal life.

Brisa Solar/ Solar Breeze

Portugal, Ana Pissara e José Nascimento, 2020, 76' 

Moçambique 1974 - o nome europeu da capital Lourenço Marques foi apagado e substituído por Maputo. Depois da Revolução dos Cravos em Portugal, a cidade moçambicana “passou para a mão do povo” e os novos habitantes que tomaram a cidade dos brancos levaram para a cidade uma cultura rural. 

Entre a delicadeza e o apocalíptico, “Brisa Solar” revela os pequenos segredos de uma cidade africana que nasceu de um sonho modernista, que protagonizou uma revolução e que vê hoje o seu valor patrimonial e cultural ameaçado pelo capitalismo chinês.


Mozambique, 1974 —the capital’s European name “Lourenço Marques” was erased and the city was rechristened as Maputo. After Portugal’s Carnation Revolution, the Mozambican city was “handed to its people,” and its new inhabitants brought their rural culture to the urban space. 

“Brisa Solar” reveals the secrets—from the delicate to the apocalyptic—of a city born from a modernist dream, which organized its own revolution, and now finds itself again threatened by foreign exploitation: the Chinese capitalism.

O que vai acontecer aqui?/ What is going to happen here?

Portugal, Left Hand Rotation Collective, 2019, 83'

Um documentário sobre os movimentos sociais que defendem o direito a habitar na cidade de Lisboa, num momento de intensificação das lutas pelo espaço urbano provocada pela expansão do capitalismo financeiro, que concentra riqueza em mãos de uns poucos, e aumenta a desigualdade social. Um documentário sobre aquelxs que desafiam a conversão da cidade numa mercadoria, sobre xs que desobedecem à injustiça construindo poder do lado de quem procura um lugar para viver. Um documentário de Left Hand Rotation, em colaboração com Stop Despejos e Habita!


A documentary movie about the social movement advocating the right to live in the city of Lisbon, at a time when the various fights for the urban space have increased – the result of the expansion of finance capitalism that concentrates wealth in the hands of a few people, and increases social inequalities. A documentary about those who challenge the transformation of the city into a merchandise, those who disobey injustice by building power structures for and with the ones who need a place to live. A documentary by Left Hand Rotation in collaboration with Stop Despejos and Habita!

Uma nova era/ A New Era

China, Boris Svartzman, 2019, 71'20''

Em 2008, os aldeões de Guanzhou, uma ilha fluvial na China, são despejados para a construção de um suposto Parque Ecológico, mas poucos retornam à ilha. Por 7 anos, Boris filmou a luta para salvar suas terras, desde as ruínas do vilarejo até os estaleiros da cidade que inexoravelmente avançam sobre eles. Será que irão compartilhar da mesma sina dos 5 bilhões de camponeses chineses desapropriados todos os anos?


In 2008, the villagers of Guanzhou, a river island in China, are evicted to build a presumed Ecological Park, but few inhabitants return to the island. For 7 years, Boris has filmed their battle to save their land, from the ruins of the village to the worksites of the city which inexorably advances towards them. Will they share the same fate of 5 billion of Chinese peasants expropriated yearly?

Para onde ir com a história?/Where to with history?

Dinamarca, Hans Christian Post, 2019

Dresden ficou famosa pela tentativa de reconstruir seu centro uma vez bombardeado, mas famigerado devido ao surto da extrema-direita que varre a cidade. Toda segunda-feira à noite, essas duas realidades se confrontam, já que o movimento Pegida toma as ruas. Mas as duas realidades se opõem? Ou a tentativa de reconstrução do que foi perdido em 1945 ajuda a trazer de volta os fantasmas políticos daqueles tempos? O filme aborda isso, assim retratando uma cidade tomada por um passado destrutivo que não vai embora.


Dresden has grown famous for its attempt to rebuild its once bombed-out center, but infamous for the right-wing-surge that now sweeps the city. Every Monday evening, these two realities clash, as the Pegida movement takes to the streets. But do the two realities oppose each other? Or has the attempt to rebuild what was lost in 1945 helped bring back the political ghosts of that very era? The film looks into this, thereby depicting a city caught up in a destructive past that won't go away.


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